Por quê produzir um Piloto de Televisão? Parte-1

Introdução.
Autores que escreveram sobre comunicação de massa (Imprensa, Rádio, Televisão e Mídia Eletrônica) como Mauro Wolf [Teorias das Comunicações de Massa], Lorenzo Vilches [A Migração Digital], e Henry Jenkins [Cultura da Convergência], vêem o trinômio Entreter, Informar e Educar como uma das premissas mais essenciais no desenvolvimento e difusão do conteúdo televiso.
Eles concordam ainda que os conteúdos adaptam-se às novas plataformas tecnológicas de cada período evolutivo e moldam-se à luz da política setorial que os estados buscam implementar, além de concordar que quem manda é o capital.
No livro “A televisão Brasileira na era digital – Ed. Paulus, os pesquisadores nacionais Cesar Bolaño e Valerio Britto, traçam o que vemos em outros setores:
“(…) os interesses econômicos de players capitalistas do setor audiovisual determinam toda uma indústria cultural por traz das políticas públicas, e muitas vezes não imparciais”

No passado recente somente grandes conglomerados de comunicação tinham condições de fazer uma produção serial dada a posse do aparato tecnológico de exibição, e dos meios políticos para alavancar os seus interesses.
No Brasil, o crescimento do share da televisão por assinatura e as intervenção de políticas públicas de incentivo e proteção ao conteúdo nacional via Lei 12.485 (lei da tv paga) permitiram aos produtores independentes a oportunidade de cruzar a linha primária que os limitava.
Andrea Cals, curadora do Canal Curta expõe este cenário:
A obrigatoriedade dos produtos audiovisuais brasileiros criou uma necessidade (…) maior de propostas e produções. (…) apareceram vários canais ávidos por produtos nacionais de diferentes estilos; (…) ficando mais claro o tipo de parceria que as produtoras podem estabelecer.

Piloto de TV.
O conceito como conhecemos, nasceu nos EUA em meados dos anos 50 quando grandes redes americanas ( CBS, ABC, NBC) começaram a comprar produtos de terceiros, muitos indicados por agências de propagandas que precisavam testar uma audiência muito sensível às inclinações sociais. Dada às regras sociais estabelecidas à época, uma pessoa de cor surgir como protagonista em um programa de costumes femininos poderia comprometer o faturamento da emissora porque anunciantes sentiam-se ligados à temas não pertinentes à sua marca.
Assim, pilotos de televisão eram em grande medida “estudos de casos”, e evitavam um “desvio de conduta”, mas eram principalmente uma régua mensurável onde o investimento publicitário deveria ser colocado no ponto mais alto.

Fig1
Figura 1 – tabela “Os 10 países com maior investimentos em 2005” do Livro Cesar Bolaño e Valerio Britto [ A televisão Brasileira na era digital - pag 57]

fig2
Figura 2 – tabela Ibope Janeiro/Dez 2013 com os investimentos atuais de publicidade nos meios de comunicação.

Os investimentos publicitários vem confirmando (ainda) o meio televisivo como principal mídia de massa e obviamente isto impacta toda a cadeia audiovisual. A busca por uma exibição qualificada (por segmento) onde o investimento publicitário pode encontrar seu público fez o modelo a cabo crescer sensivelmente em número de assinantes. Hoje, no Brasil, a TV a cabo surge no 3o. posto em investimento publicitário.

A indústria de TV americana detém processo definido para a execução e compra de pilotos de televisão. As maiores redes possuem processos de submissão de projetos e um time de profissionais entre técnicos e executivos que pré selecionam um número definido de scripts em dada época.
Os showrunners (autores e/ou produtores) das idéias são convidados para pitchings e devem vender “na garganta” o conceito, a abordagem e a dinâmica destas propostas e que poderão vir a ser uma série de televisão. Mas até aqui nada de Piloto!

Somente as idéias mais alinhadas ao perfil e a rentabilidade da rede, além de aderentes às variáveis como atualidade, formato inovador ou abrangência de público passam à segunda fase onde os responsáveis recebem uma bolada de investimento para produzir o piloto. Isto se dá após uma negociação de cessão de direitos autorais e que futuramente passarão a propriedade do canal / rede. (apesar de vezes manterem percentuais para os showrunners)
Destes, os que “funcionam”, tornam-se série contratada por uma ou mais temporadas, e alguns chegam a ser tornar 1os.episódios como ArquivoX, famosa série da FOX nos 90 e disponível no NETFLIX, via VOD (Video on Demand).

Cenário Brasileiro.
Na cenário brasileiro independente o processo de contratação de Piloto de TV praticamente não existe. A variável fundamental que define isto passa pelo direito autoral da idéia, e aqui, as emissoras e redes, não podem ser “donos” do projeto. Isto as deixam pouco confortáveis para financiar um produto que não possuem direitos de autor, e talvez nem venham a ter o de propriedade.
De fato a legislação brasileira protege a soberania nacional no que se define como “produto audiovisual brasileiro” ; e não propõe abrir mão disto; mas isto estabelece um impasse. Os autores brasileiros são os empreendedores de fato e de risco da idéia, criando e produzindo o escopo inicial da pesquisa e do desenvolvimento de modo empírico ( tentativa e erro); já que a grande maioria não dispõe de grandes recursos para fazer de modo eficiente esta etapa.
Por outro lado, os canais exibidores de TV por assinatura (cabo ou satélite) em maioria estrangeiros e americanos “sambam bem quadrado” quando apostam na virilidade de uma idéia nacional via Piloto de TV. Eles simplesmente não investem e esperam que idéias alinhadas às suas grades de programação; e principalmente as que já venham com uma linha de financiamento resolvida; caiam no colo e então iniciam longo processo de contratação que muitas vezes geram expectativas doentias nos produtores.
De fato, na perspectiva destes canais; que historicamente somente precisavam “nacionalizar” (dublar e/ou legendar) produtos vindos de fora e agora se vem obrigados a adquirir ou a co-produzir conteúdos nacionais; desembolsar qualquer valor para o desenvolvimento de pilotos-testes sem serem donos da idéia (e de suas futuras receitas) gera uma dor de cabeça por financiamento que não pretendem para si. Isto não é de se culpar, vendo pelo viés do capital.

Mas observando dados da ANCINE- AGÊNCIA NACIONAL do CINEMA, órgão que regula o audiovisual nacional, percebe-se a evolução quantitativa mensal de conteúdo brasileiro e nos dá a sensação que tem começado a valer a pena produzir na nossa língua.
O órgão atento a este gargalo do inicio do funil, dispôs através do Fundo Setorial Audiovisual, do dispositivo onde o proponente (cine ou tv) poderá se beneficiar para desenvolver idéias, pesquisar conceitos, fazer pilotos e testar formatos respeitando algumas regras de classificação.

No gráfico a seguir, vemos que canais de filmes (Telecine, AXN, TNT) conseguiram adaptar-se melhor no período, adquirindo longas metragens brasileiros prontos e aptos a veiculação. Exceção é o canal HBO, que investiu em 8 séries nacionais como “O Negócio” de Luca Paiva Mello e Rodrigo Castillho, que conta a vida de três prostitutas de luxo que lançam mão de estratégias de marketing para faturar mais. Os outros canais apenas mantém-se na cota ou abaixo dela.

Fig3
Figura 2 – Número de Horas de Programação de Conteúdo Brasileiro 2010 e 2012 em – 14 Canais qualificados). Fonte ANCINE.


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