“Por quê não conseguimos visualizar ao telefone? Ou Por quê Transmídiar?

A primeira parte da frase acima é um parágrafo do livro cânone “Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem” de Marshall MacLuham (1996 –Editora Cultrix). Ela está no capítulo dedicado ao telefone, em que o autor explica como esta mídia aproxima ou até tele transporta as pessoas para próximo de seu interlocutor. No livro bibliático (sic) de Henry Jenkis, Cultura da Convergência (2008 – segunda edição ampliada – Editora Aleph), ele surpreende-se quando sai para comprar um telefone celular, mas não encontra um que apenas “fale”. Todos os modelos mandam torpedos, tira fotos e gravam vídeos, possuem jogos, tocam música, navegam na web e até te fazem companhia se desejar.

Passado algumas décadas desde o texto de MacLuham, já deu para perceber que além de visualizar, o “ouvinte-falador” já interage e foi além. Transportou um conteúdo de seu núcleo pessoal ou profissional de interação (amigos, família, clientes) para um núcleo exponencial de interações fora de sua órbita pessoal cotidiana. Se pudesse, interagiria até com mortos, como proposto no projeto vencedor do LabTransmedia do último RioContentMarket 2012, “Contatos” da Segunda-feira filmes do Rio, que foi antes de tudo uma grande apresentação de projeto no estilo “picthing”.

A segunda parte da frase acima, lá no topo do texto, é uma destas perguntas chaves que não querem calar quando o “novo” aparece, quando uma evolução (no sentido de evento após outro) encaminha-se na nossa linha do tempo.

sapatofone

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Para justificar a frase no título tenho que dizer o óbvio: “O desenvolvimento de dispositivos convergentes é cada vez maior e em algum momento chegará à nós”. O que quero dizer é que  apesar da tentativa de mantermos-nos no controle do que conhecemos, somos impelidos a ir para o futuro e tentarmos entender “o que é, ou o que será a transmídia”, seja contar histórias em diferentes mídias ou criar narrativas multiplataformas. O fato é que ela já está aí e a audiência já está nela.

Do ponto de vista de um produtor cultural/audiovisual, pensar sobre isto basicamente passa por: “Como se construir um conteúdo agora?”. Fora os motivos de cada um, fica claro que fazer parte deste fluxo vai aumentar a complexidade de produção (alguém discorda?), mas deixar de lado uma perspectiva transmidiática para o conteúdo de seu projeto é com certeza uma opção de risco em um mercado de comunicação cada vez mais competitivo.

Então se o porque parece obvio, como devemos transmídiar o conteúdo que a priori nos parecia cabível dentro do modelo estabelecido e que (aparentemente) estava bom? Música na rádio, em shows e agora no Mp3!  Vídeo no DVD e agora no youtube!  TV de assinatura ou web e agora no mobile!

Recentemente visitei e conversei com Marcelo Bauer, da CrossContent, jornalista especialista em novas mídias e conteúdista convicto focado no que ele denomina como webdocumentários, algo como um infoaudiviosual não ficcional em plataforma web. Há um exemplo muito bom no portfólio dele, “Rio de Janeiro/ Autoretrato” que versa sobre favelas no Rio como pano de fundo, e como primeiro plano, profissionais fotógrafos que ali moram.

O que rola de interativo é você ver os vídeos ou fotos e postar comentários, para e pelas redes sociais que se aderem à narrativa do capitulo. Sua intenção é levar as imagens captadas pelos fotógrafos para uma exposição física, mas também interativa.

Não é exatamente o que entendo como um modelo transmídia, mas mais uma convergência cross conteúdo, o que cá entre nós acaba raspando na experiência midiática da Caixa Preta (Todas as mídias em um único box device) de que fala Henry Jenkis, onde o ideal para um projeto se definir como transmídia, é seguir o que chamou de os sete princípios capitais:

  • Compartilhamento / Profundidade: Grau de interesse que o usuário tem de se aprofundar naquele conteúdo apresentado naquela mídia, e, a motivação que ele tem em compartilhar (chamar) outros a participar do que vê naquela mídia.
  • Continuidade / Multiplicidade: A aplicação de uma narrativa continua, complementar e plausível a partir da história principal nas mídias franqueadas, ou mesmo uma inversão total da história principal, criando universos paralelos, antagônicos ou até surreais em realce à narrativa principal.
  • Imersão x Extração: Criação de ambientes (virtuais ou presenciais) para fazer imergir o usuário / fã e desenvolver produtos que podem ser levados ou acessados pelo usuário / fã no seu quotidiano.
  • Construção de Universos: Elementos e Universos complementares ou não relacionadas diretamente a mídia e à narrativa principal e que orientam de forma rica o usuário / fã a entender aspectos da historia principal.
  • Serialidade: Evolução do hiperlink narrativo construído dentro de uma única mídia. Aqui este hiperlink se ampliou para estar simultaneamente ou sequencialmente em diversas mídias ou plataformas.
  • Subjetividade: Em mídias franqueadas, à narrativa principal é contada a partir de pontos de vista de terceiros envolvidos ou alheios a narrativa principal, como por exemplo, personagens secundários ou pessoas de fora.
  • Performance: Característica das extensões transmídia para convidar e trazer, via convite formal ou modo espontâneo, usuários / fãs a partilharem e produzirem conteúdos aderentes à narrativa principal.

Contudo ele mesmo, em recente palestra no Transmedia Hollywood2, Visual Culture & Design, e passível de ver no Vimeo, propõe que, se atingirmos quatro destas diretrizes estaremos no caminho do modelo transmídia.

Outro autor, professor de uma universidade de Barcelona, Dr. Lorenzo Vilches, e especialista no tema (estamos falando de mídias digitais, hein!?)  traduz no livro Migração Digital (2001 –Editora PUC Rio), o que viria ser fenômeno emergente, e que agora se consolida: “Esta migração (digital) afeta o imaginário tecnológico, a linguagem e o mercado cultural, as novas formas de narrativas, os comportamentos dos usuários e também uma nova maneira de viver o espaço e o tempo (…)”

Bom, hoje a informação de determinado evento chega tão próximo e rápido do publico, que não pode ser levado à todos e com seu o conteúdo “intacto por apenas uma mídia” sob risco de saturar a atenção do intermidiático-usuário-fã! Ela prescinde, por estruturação, de variadas mídias para atingir diferentes nichos ou públicos que vão preencher a expectativa cognitiva destes públicos em um fenômeno além do zapping, editando e compreendendo conteúdos complementares ou mesmo distintos entre si.

Do público emergente, que vai de geeks e interados à empreendedores digitais ou sócios transformadores, interessados em dispositivos modernos e conteúdo interativo (colaborativo ou proprietário), o que se entende é que deva-se conectar e participar na construção de uma cultura digital não homogênea.

Na história da comunicação do século XX ( e em diante), a verdade é que as “marcase seus conteúdos publicitários já estavam trafegando em todas as mídias (brands experiencies), procurando uma convergência de interação que supunha ser espontânea e afetiva do usuário-cliente. Isto deu quase sempre resultado com produtos ou engajamento via entretenimento ou travestidos disto, porque a recompensa é o próprio entretenimento. Pode-se ver o que a Coca-Cola vem tentando, e algumas vezes conseguindo com vídeos flashmobs de promoções. Exemplos como “The Coca Cola Friendship Machine” e “The Coca Cola Happiness Machine” estão no youtube para serem compartilhados.

Talvez esta seja a chave. Colocar foco no entretenimento que o usuário-fã terá, e convidá-lo sempre que possível a ser o realizador/ produtor e até o protagonista. O atual vídeo ícone do crowndsourcin , Star Wars Uncut: Director’s Cut, 2009 é uma experiência espontânea de fãs internautas e premiada pelo Interactive Media Emmy em 2010 que só foi finalizada em 2012. De acordo com o organizador, Casey Pugh, a Lucas Film apoiou o projeto e acho que não dava para ser diferente.

Se não é um claro exemplo de transmídia, é claro o exemplo de mobilização que as novas mídias (web) têm sobre as mais velhinhas (cinema).

Mas é obvio que, formalmente, cada nicho possui público específico para conteúdos e subjetividades específicas, e é com isto que devemos lidar. Apesar de entender que haverá espaço para as mídias tradicionais e seus modelos de apresentação (por não sei quanto tempo), a transmídia chegou para ficar e para transformar produtos de entretenimento em produtos de inter-entretenimento, e ainda pensando em MacLuham, de fato a mídia é uma coisa carregada de informação, destas que transformam o meio e que também transformam o fim.

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